quarta-feira, 7 de abril de 2010

Muniz, o BBB 10 e a tal transmídia

Artigo do professor Muniz Sodré publicado no Observatório da Imprensa.


BIG BROTHER BRASIL
O triunfo estatístico do banal

Por Muniz Sodré em 6/4/2010

Na quinta-feira (1/4), era um júbilo só o sistema Globo: a final do Big Brother 10, exibida dois dias antes, dera à rede de TV 40 pontos de média de audiência. "Menos que as edições anteriores (na ordem: 59, 45, 55, 56, 57, 51, 48 e 46 de média)", comentava uma coluna do jornal, ressalvando: "Em compensação, a explosão na internet impressiona: foram mais de 154 milhões de votos, um recorde mundial em reality shows. Com isso, o programa se consagra como o único da TV brasileira que cumpre plenamente o objetivo transmídia. E isso não é pouco". De fato, nada aí é pouco: "Em todas as dez edições do Big Brother Brasil, houve um total de 2 bilhões 558 milhões 958 mil e 35 votos na Globo.com. É muita coisa".

Não se trata mais de fazer ressoar o bordão da crítica culturalista baseada de "bons" e "maus" conteúdos, para despertar a adormecida consciência educacional do público e terminar com uma sentença condenatória do show televisivo. Esse tipo de análise parece-nos hoje rigorosamente inútil ou serve apenas para alimentar de vez em quanto os surtos de moralismo cultural de setores reduzidos da esfera pública.

Pode ter alguma utilidade, entretanto, chamar a atenção para a persistência desse fenômeno mobilizador de audiência com as revelações dos cientistas políticos Amaury de Souza e Bolívar Lamounier no recém-lançado livro A classe média brasileira: ambições, valores e projetos de sociedade, em que ambos traçam um perfil da chamada classe C, isto é, os 26,9 milhões de brasileiros que, com 46% da renda nacional, superam os 44% das classes A e B. Segundo o estudo, trata-se de indivíduos sem qualquer consciência (política) de cidadania, mas que se reconhecem como cidadãos consumidores.

Estratégias de espetacularização
Seria muito interessante determinar de que estrato socioeconômico provém majoritariamente o público do BBB. Mas ainda que não se localize a sua origem nessa indigitada classe C, as tendências políticas e culturais parecem ser as mesmas, ou seja, uma vontade de se fazer presente na esfera pública, desde que essa "presença" não tenha nada a ver com os mecanismos clássicos da cidadania, que implicam participação coletiva na cena pública com o objetivo de influir sobre o controle social: mandatos parlamentares, vigilância sobre o orçamento etc. Com um peculiar sistema de votação para a eliminação de seus figurantes, o BBB cria um espetáculo participativo em que o envolvimento do público, por si só, faz as vezes de um livre movimento de atuação cidadã.

A utilização massiva da internet, conjugada com a audiência televisiva tradicional, é uma novidade mercadológica. Mantém-se inalterado, entretanto, o ponto de vista da crítica de décadas passadas, segundo o qual a cultura de massa "espetaculariza" a vida, ao mesmo tempo em que suas práticas estéticas fazem com que o afeto seja o principal apelo necessário à circulação de produtos e processos do mercado. O valor de sujeito é dado pelo acesso às novas tecnologias (agora, a internet), que propiciam a emergência de um "ser comum" centrado no afeto, na sensibilidade – e na banalidade.

Na mídia convencional (que alguns chamam de "jurássica"), cabe à retórica da propaganda ou da publicidade emocionar pelo discurso banal. As estratégias de espetacularização acabam por produzir um novo tipo de realidade que reorienta hábitos, percepções e sensações. A mídia deixa de apenas informar, para começar a fazer parte como sujeito ativo das relações sociais. É desta maneira que a figura do consumidor começa a adquirir um novo conceito de sujeito social configurado pelo mercado e confinado à esfera do consumo.

Uma espécie de gladiador
Apesar das aparências de mudança introduzidas pela internet, essa figura do consumidor é a mesma para o sistema da mídia. Mesmo que aumente o feedback ou a capacidade de resposta dos usuários de TV e internet (e esta de fato é enorme agora), o marketing midiático continua voltado para o seu público-alvo como uma massa a ser incorporada para efeitos de consolidação da audiência.

Quando o jornal diz que o BBB é "o único da TV brasileira que cumpre plenamente o objetivo transmídia" está na verdade assinalando o valor "moral" exclusivo da programação televisiva: ser um curto-circuito de si mesma. Embora seja apenas uma instância singular do sistema industrial comercial, o programa BBB está nos dizendo que a mídia quer ser apenas "mais-mídia" (não só televisão, mas televisão com internet), que não há qualquer finalidade social ou cultural além de sua própria realização técnica.

É natural que os 154 milhões de votantes do BBB 10 possam sentir-se como sujeitos que exercem democrática e comodamente, de dentro de suas casas, uma livre opção: isso ou aquilo, fulano ou fulana, homossexual ou homofóbico. A tecnologia digital amplia em muitos graus a mais a velha intimidade à distância propiciada pela telenovela. De mouse em punho, o espectador define-se de certo modo como o público da arena romana que decidia sobre vida ou morte do gladiador derrotado.

E talvez não seja absurdo pensar no participante do BBB como uma espécie de gladiador que se vê no espelho da mídia, dia após dia encerrado numa casa, tentando provar para concorrentes e telespectadores que ele é um si mesmo tal e qual se mostra, sem encenação. Nenhuma fera ameaça de fato os participantes e, no final, o vencedor torna-se um pequeno milionário. Para o espectador (classe C?), a moral da história deve ser buscada na animalidade do banal.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Deleito-me ao imaginar que os homens logo ficarão fartos de ler: e os escritores também; de que o erudito de uma geração futura algum dia se conscientizará, fará seu testamento e ordenará que seu cadáver seja incinerado em meio a seus livros, especialmente de seus próprios escritos.

Friedrich Nietzsche Sabedoria para depois de amanhã. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p.34.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Dreadnox is back ( Master brains do metal brasileiro)


http://www.myspace.com/dreadnoxbrazil

As bandas de amigos são sempre as melhores! Dreadnox de volta com album novo, nova formação e novos-velhos parceiros ( produção do disco é do Tribuzy, o grande Renato do ótimo Horizon). Conheci o Dread nos tempos de Guanabara e Sound Trap. Chegamos a tocar juntos no Black night há... 15 anos!!! Ouvi-los e revê-los hoje é emocionante e um exercício da memória...

Estamos conversando sobre o vídeo da primeira música de trabalho que tá no myspace. "Dance of ignorance". Parceiros de som no passado e de imagens hoje. Vamo que vamo!

domingo, 7 de março de 2010

Projetosexperimentais.com

http://www.e-publicacoes.com.br/index.php/projetosexperimentais/index

No ar mais um número da revista Projetosexperimentais.com que edito ao lado dos amigos Ricardo Severiano e Beatriz Schmidt. Por aqui, posto o editorial que escrevi para esse número.

“Como falar de uma “comunicação dos arquivos” sem tratar primeiramente do arquivo dos meios de comunicação”? (Jacques Derrida, Mal de arquivo, p.8).
Nesse número da revista Projetosexperimentais.com, essa provocação do filósofo francês Jacques Derrida parece ganhar vida. As propostas por aqui desenvolvidas beiram o grande arquivo que os meios de comunicação e os estudos dos meios criaram ao longo da consolidação do campo. Beiram a diversidade e a diferença, margeiam a alteridade nos fazendo compreender melhor a equação do poeta Rimbaud: “Eu é um outro”. Disso acreditamos tratar a comunicação desses arquivos que seguem. Sintetizá-los para dar forma a um editorial é também uma procura de vida no interior dos arquivos como observou Deleuze sobre a literatura de Melville. Os trabalhos se comunicam justamente por arquivarem propostas importantes e saudáveis para a área que passeiam pela própria saúde, mas também pelo corpo, pelas corporações pelos saberes e poderes que regem os corpos, mas também pela alma das mídias.
Daniela Savaget retoma em IMPRENSA EUFÓRICA, COMUNICAÇÃO COMPROMETIDA: O RECOLHIMENTO DO NELFINAVIR a questão de que jornalismo ainda possui “muitas dificuldades no diálogo entre comunicação e saúde”. Seu estudo receptivo sobre o recolhimento do antiviral, utilizado no tratamento da AIDS, sintetiza que nem sempre há comunicação efetiva pelos profissionais de mídia que tratam da saúde. Já em O CORPO COMO MÍDIA: AS RELAÇÕES ENTRE A TATUAGEM E A DIREÇÃO DE ARTE NA PUBLICIDADE é a saúde da própria publicidade que aparece em jogo. Tiago Larangeira oxigena boas idéias para pensar a direção de arte e o ofício do tatuador e as marcas na tatuado. Se o mestre Chico Buarque já declamou querer “ficar no teu corpo como tatuagem”, o artigo de Larangeira mostra que “é possível afirmar que o tatuador se “transforma” em um diretor de arte quando executa o seu trabalho.”, ficando na nossa mente ( como tatuagem) a necessidade de sempre se pensar o corpo.
Em AS TENTATIVAS DE GOVERNABILIDADE E AUTOREGULAÇÃO DO CIBERESPAÇO, Ines Maria Azevedo do Nascimento pensa os paradoxos da convivência entre o que regulamenta, mas também de quem precisa regulamentar o universo desenhado pela web. Como bem lembra: “O Estado tende a despertar para a questão do controle legal da internet, do exercício da sua soberania sobre a rede, e atentar para eventuais perdas dessa governabilidade em relação aos usuários, as trocas e operações correntes.” Nesse sentido e dessa constatação tentamos ao lado de Leonardo Lagden - em um artigo a
quatro mãos e muitas vozes - problematizar um pouco mais esse espaço dos vídeos na internet que nos força a repensar os direitos autorais. Nosso artigo QUANTOS TUBES HÁ NA REDE SE O MUNDO DAS IMAGENS DÁ VOLTAS E VOLTAS? tenta elencar outros „Youtubes‟ na rede. Vocação dos arquivos da comunicação, da comunicação dos arquivos.
Lembrando de início a mudança perceptiva e sua relação com a existência pensada por Walter Benjamin em um belo artigo também sobre a imagem na rede, sobre essa imagem-rede, Gabriel Malinowski associa o movimento cinematográfico dinamarquês Dogma 95, o Mumblecore ( forma como a crítica vem classificando os filmes de baixo orçamento na cena norte-americana) e o caso do massacre na escola Virginia Tech, onde mais uma vez mídia e barbárie se encontravam. IMAGENS DE NOSSOS TEMPOS é uma bela análise da relação entre estética e subjetividade no contemporâneo.
Inaugurando a seção de resenhas de nossa revista o Youtube aparece por aqui mais uma vez. Trata-se do livro YOUTUBE e a revolução digital : como o maior fenômeno da cultura participativa esta transformando a mídia e a sociedade”, de Jean Burgess e Joshua Green com textos também de Henry Jenkins e John Hartley. George Abreu Assunção sintetiza um pouco da obra desse mundo de arquivos audiovisuais onde transmitimos a nós mesmos.
Esperamos que o leitor arquive esses textos imersos no grande arquivo da www. Se já há algum tempo como observou o pintor Paul Klee os objetos nos percebem, os arquivos dessa projetosexperimentais.com são novas vidas; sobrevidas e sensorialidades que começam também a nos olharem.

sexta-feira, 5 de março de 2010

We want the airwaves




9 to 5 and 5 to 9
Ain't gonna take it
It's our time
We want the world
and we want it know
We're gonna take it anyhow

We want the airwaves
We want the airwaves
We want the airwaves, baby
If rock is gonna stay alive

Oh yeah-well all right
Let's rock-tonite
All night

Where's your guts
And will to survive
And don't you wanna
Keep rock n' roll music alive
Mr. Programmer
I got my hammer
and I'm gonna
Smash my
Smash my
Radio

We want the airwaves
We want the airwaves
We want the airwaves, baby
If rock is gonna stay alive

http://www.youtube.com/watch?v=IV4rMCkyrLE&NR=1

( The Ramones)

quarta-feira, 3 de março de 2010


"Meus heróis não são mais os guerreiros e os reis, mas as coisas de paz, tão boas uma como as outras. As cebolas secando tão boas quanto o tronco de árvore cruzando o pântano. Mas até hoje ninguém conseguiu cantar uma epopéia de paz. O que acontece com a paz, que sua inspiração não dura e que quase não se deixa narrar".


“Os olhos são a luz do corpo. Se os olhos forem bons, o corpo será luminoso. Mas, se forem maus, o corpo estará em trevas”.

“A eterna questão! O sentido da vida. Porque estamos aqui. Um momento tão curto comparado à eternidade, seria melhor as pessoas conhecerem seu destino? Acho que seria melhor, pois elas procuram a vida toda pelo propósito de sua existência”.

“Ninguém ouve o que os outros sentem, ninguém olha o coração dos outros, ninguém pergunta nada, nem informação”.


( WIM WENDERS, Asas do desejo, 1987).