quarta-feira, 3 de março de 2010


"Meus heróis não são mais os guerreiros e os reis, mas as coisas de paz, tão boas uma como as outras. As cebolas secando tão boas quanto o tronco de árvore cruzando o pântano. Mas até hoje ninguém conseguiu cantar uma epopéia de paz. O que acontece com a paz, que sua inspiração não dura e que quase não se deixa narrar".


“Os olhos são a luz do corpo. Se os olhos forem bons, o corpo será luminoso. Mas, se forem maus, o corpo estará em trevas”.

“A eterna questão! O sentido da vida. Porque estamos aqui. Um momento tão curto comparado à eternidade, seria melhor as pessoas conhecerem seu destino? Acho que seria melhor, pois elas procuram a vida toda pelo propósito de sua existência”.

“Ninguém ouve o que os outros sentem, ninguém olha o coração dos outros, ninguém pergunta nada, nem informação”.


( WIM WENDERS, Asas do desejo, 1987).

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O dia em que Adorno e McLuhan sentaram para ver o BBB*



*Esse foi um dos primeiros posts desse blogue e acho que se referia ao BBB8. Coloco ele de novo na roda com uma nova foto (dessa vez do filme 1984 de Michael Radford)...

Herbert Marshall McLuhan (1911-1980) se referia vez ou outra a televisão através da expressão “sala de aula sem paredes”. Para o autor, a televisão era um mosaico (uma tela pontilhada) que convidava os sentidos a interagirem e a mente a coletivamente conectar-se. Entusiasta dos meios eletrônicos e profeta das novas mídias, McLuhan não assistiu a explosão dos reality shows na televisão.



Theodor Wiesengrund Adorno (1903-1969), uma das principais vozes da Escola de Frankfurt, negava qualquer possibilidade dos meios eletrônicos estimularem a emancipação do homem. Para Adorno, a televisão possuía uma função, sobretudo deformativa. A rubrica Indústria Cultural, cunhada por Adorno ao lado de Max Horkheimer, colocava a televisão em meio a outros produtos culturais pautados pela produção em série. O sério pensador alemão também não assistiu a explosão dos reality shows na televisão.



Em um momento duplamente crucial na história do veículo televisivo no Brasil: a entrada em cena do modelo digital e a criação de uma TV realmente pública, a rede Globo de televisão estréia mais um BBB. O que McLuhan e Adorno, antagonistas de pensamento, teriam em comum em suas leituras sobre o veículo nos dias de hoje seria a eterna preocupação com a porção educativa da televisão. Como educadores não podemos nos calar com mais uma estréia de um reality show. Fenômenos como esses oito grandes irmãos atestam a necessidade que temos de pensar ainda o veículo. Em tempos onde de longe sentimos que o meio é a massagem, a indústria da cultura ainda dá as cartas. Contra a parede ou no paredão, o BBB pode ser a mensagem para quem ensina.

Não nos preocupemos um instante com audiência, moralismos ou qualquer questão de ordem estética. Pensemos um minuto somente na possibilidade que o veículo ainda possui e como um exemplo - somente um - pode contribuir, através de sua negação, para levarmos a televisão a sério como brilhantemente nos convidava, por volta dos 2000, Arlindo Machado. No livro “A televisão levada a sério” (Editora Senac), Machado explica brevemente as teorias de McLuhan e Adorno e faz uma opção em não ficar com nenhuma das duas, e sim pensar a questão do repertório. Talvez tenha chegado a hora de pensarmos, entusiastas ou demolidores, apocalípticos ou integrados de forma conjunta. Se pudéssemos, devíamos sentar com McLuhan e Adorno para não somente darmos uma “espiadinha” como somos conclamados pelo programa Big Brother Brasil. Mas ir mais além dos olhos, e realmente analisarmos a situação da TV em terra brasileira.

Daí não mais uma Verdade, mas uma provocação adorniana e mcluhaniana pode surgir para a sociedade da informação. Professores que usam o BBB como exemplo do que a televisão não deve ser. Educadores que, através do reality show, discutem como o mesmo meio que cria programas de vanguarda como o Abertura, o Roda viva e o Recorte Cultural, para citarmos três, pode aceitar seus BBB’s. Que a sociedade leve o programa pras suas discussões e transforme esse produto serializado em lição de uma sala de aula sem paredes, que não pode ser esquecida em nenhum momento. Para que não haja mais um irmão da novílingua BBB. Mas para que a forma TV informe e forme um novo cidadão que se pudesse escolher entre ver ou não ver optaria por manter os olhos fechados.

domingo, 31 de janeiro de 2010

o Historial Vasco ( carta a Aldir Blanc)



Rio, 31 de janeiro de 2010

Caro Vascaíno e gênio Aldir Blanc, muito obrigado!

Tinha jurado pra mim mesmo ( embora essa expressão seja uma das piores pra o que realmente fiz) que não ia escrever sobre meu time nesse espaço que dedico às minhas paixões, mas uma recente leitura sua me fez repensar esse pathos. Talvez por O Vasco ser minha grande paixão. Durante muito tempo como qualquer uma, cega e desenfreada. Depois de algumas frustrações com a política do clube sobretudo, essa paixão se transformou em um sentimento inomeável. Ler seu livro em parceria do José Reinaldo Marques, " VASCO - A cruz do bacalhau", me fez tentar nomear esse sentimento ( que nunca vai parar). O Vasco é o time que me faz, e deve fazer todo vascaino, gostar da História. Reluto com a noção de História até hoje. Talvez por minha leitura de Nietzsche uns 20 anos atrás. Sei dos excessos a que ela nos submete e que nos submetemos a ela. Mas o historial - que é como considero o Vasco hoje - é um adjetivo de primeira! Mais do que o Histórico, o historial é como um adjetivo que precisamos re_compor. Esse livro A cruz da bacalhau é uma lição do que um time deve ser. É uma lição do que uma paixão pode ser. Sem fanatismos de tocar o hino a cada segundo ou de se querer nação. O vasco é uma nau, uma nau fantasma que nunca vai afundar... Escrevo essas linhas enquanto nosso Vasco ganha do Friburguense. Tenho poucos minutos para voltar e sofrer historialmente. O Vasco é o time da virada, pois é o time que mais bem representa a História do futebol brasileiro. Pois lutou contra o preconceito dentro e fora dos gramados. Pois foi o primeiro a de fato (assim como a História gosta) a levar o negro pra dentro dos gramados. Pois teve a primeira chefe de torcida mulher. Pois é um time de artistas ( aquele quadro do programa da 'Grobo' do Serginho Groisman da banda da torcida nunca poderá ser com o Vasco, pois a quantidade de músicos vascaínos ( falo músicos mesmo e não produtos da indústria cultural mais nefasta) é incontável. O Vasco é o primeiro nos títulos internacionais e nos acordes nacionais que importam ( Pixinguinha - em boas mãos - o senhor, Guinga, Wagner Tiso, Francis Hime, Edu Lobo, Paulinho da Viola, Marcelo Camelo, Clementina de Jesus, Fernanda Abreu, Erasmo Carlos, Celso Blues Boy, Wilson Oliveira Filho - o vasco me fez querer tocar guitarra!!!). Ah, e o maior torcedor e não-músico, só no coração: Wilson Oliveira, meu pai que, como Ceceu Rico (seu simpático pai), é o maior vascaíno!!! Ah, quantas vezes o Vasco foi primeiro, que hoje eu nem ligo de ser o eterno segundo. Segundo naquela decisão contra O Real Madri ( aquele jogo em que uma torcida carioca criou uma pseudo torcida Brasil/Espanha) que levou ao abraço nu com meu pai! Despido até das roupas em nome da paixão que herdei dele, do historial que herdei dele e hoje tanto me dói por sua falta. As vitórias em campo ou não do passado me encantam mais que qualquer título. Deem eles todos ao nosso arqui - rival ( assim separado mesmo!!!) Pois me interessa muito mais o fato do Vasco ser mais do que campeão, ser historial. E ser isso tudo fora do tempo e do espaço. Se como você bem lembrou logo depois da queda para a segunda divisão: "Se o vasco for pra terceira divisão sou Vasco, se o vasco deixar de existir, mesmo assim sou Vasco."

Suadações vascaínas no cair da tarde,
Wilson

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

New beginning


"Time and sound, memory and matter - for me, it's all a mix. I look at film as the central myth processing site for the 20th century's subconscious, and if there's anything dj'ing brings home it's how much our memories and lives have been inundated with media culture from the very beginnings of consciousness. We're probably the first generation to grown up with electronic media at every angle. Satellites, cell phones, t.v. telephones, fiber optic cables etc etc You name it, we remember it. Call it the archeaology of the viral virtual or whatever. Film was just the beginning. The nextsituation - vj's & dj's net mixes etc etc... check the situation.... - we're just getting started"
The rebirth of a nation photo
Dj spooky

Pra dar sequencia as imagens estáticas das imagens em movimento dos vj's, lembrando o post http://pontesobreoabismo.blogspot.com/2009/08/blog-post.html

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Odeia a mídia? Seja a mídia


Vendo um vídeo dos Dead Kennedys e lembrando da famosa frase do Jello Biafra ( "Não odeie a mídia, seja a mídia") - esse aí na tela em meio ao público ( um dos significados que McLuhan brilhantemente também lembrou)- penso - não consigo parar de pensar - na necessidade que temos de pensar a todo o tempo o corpo, de botar o corpo pra pensar, de corpar o corpo, incorporar, encorporar nossa era de corporações... mas também de corpos-sensações que estão:

No Som - O punk, o funk, mas também o metal - ontem passei o dia ouvindo Slayer - o samba não do carnaval da Tv, mas do meio do bloco ou do meio da bateria.
NA Imagem - O cinema visceral de Cronenberg, Romero ( lembrei tanto ouvindo o Tom Araya berrar ontem), mas também da mídia psicologizada do Hideo Nakata; o vídeo de letícia Parente e Bill Viola, do genial Chris Cunningham... mas também a imagem da guerra, da dor para abrir nossos olhos e botar nosso corpo em luta no Camboja, no Haiti, no nosso Haiti!
Na Palavra, em qualquer palavra oral, escrita, desconstruída, grunhida!
Na Rede e seus filósofos de plantão, longe de Platão e de qualquer idealismo...

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Sutil Rohmer se foi...


Não queria que o primeiro post do ano fosse triste. E não será mesmo com o caos que impera no início desse ano nas encostas do Rio, mesmo com esse calor desanimador e mesmo com a morte do Eric Rohmer. Não será triste justamente por esse último fato. A morte é vida, é morte e vida, Claire. Entre tantos bons filmes mais antigos como "A colecionadora" e os outros cinco contos morais e o recente "A inglesa e o duque", a edição do Cahiers du Cinéma e um ativismo invejável, Rohmer era um dos poucos contadores de histórias verborrágicas que gosto no cinema. Seus filmes beiravam a exaustão de um texto tão inteligente que deixava as imagens sutis de Rohmer ainda mais lindas. Vi ontem de novo "A árvore, o prefeito e a mediateca" (1992), sem avatares, só crianças, gente de carne e osso e texto. Terminei o filme rindo e chorando, ciente de que a obra faz-lhe viver. Em tempos de eleição no Brasil ver esse filme para entender o que é direita e esquerda hoje em dia e o papel da cultura e dos ecologistas é indispensável. Fique bem Rohmer...